Minha Transição: Desabafos sobre minha transição capilar

 

Se hoje sou uma metamorfose, a grande culpada é minha jornada de transição capilar. Mas preciso começar dizendo que quando eu decidi voltar aos cachos, eu não pensava ainda especificamente no termo transição capilar e seus significados. Na verdade, eu passava por uma fase em que o cabelo liso simplesmente não me representava, e por conta disso, eu buscava opções variadas de estilo de penteado.

Era um descontentamento e uma vontade de mudança que eu não entendia direito. Imagine você se olhando no espelho e não gostando do próprio reflexo. Então, era isso que eu sentia.

Mas apesar de querer mudar, eu tinha um pequeno probleminha: há anos eu tinha exatamente o mesmo estilo de penteado na cabeça – no máximo fazia uma ou outra mudança sutil, mas sempre o mesmo. E bem, imagino que você deve entender isso, especialmente se você costuma relaxar o cabelo…

É que quando você está habituada a usar químicas no cabelo, a mudança é o seu maior receio porque cada escolha envolve um milhão de consequências e mais dúvidas do que respostas: “se eu cortar, vai ficar legal?”, “e se demorar para crescer?”, “e se eu tingir e ele quebrar por conta da química?”… Bom, essas eram algumas das muitas dúvidas que eu tinha e enquanto buscava a resposta por cada uma delas, fui fazendo testes e testes.

Corta cabelo, alisa cabelo, enrola o cabelo, alisa de novo….

Para mim, voltar aos cachos, num primeiro momento, estava muito mais ligado ao fato de que eu queria mudar de visual do que ao movimento de empoderamento crespo que anda emergente nos dias de hoje. E por querer mudar de visual, eu consegui cachos muito antes de ser natural (livre dos produtos químicos). E é por isso que para mim, falar de transição capilar é falar de um mundo novo cheio de descobertas, frustrações e diversão no meio do caminho.

 A transição capilar é uma jornada que se caminha em conjunto

Eu tenho uma admiração imensa por todas as meninas que há anos sustentam seus cabelos naturais, e por todas as outras que decidiram retornar aos cachos antes de mim, quaisquer que tenham sidos os motivos que as levaram entrar em uma jornada de transição.

Especialmente quando eu me olho no espelho e vejo os pequenos cachinhos se formando, bate um orgulho danado de todo mundo que sustenta o cabelo afro sem baixar a cabeça. Bate um orgulho porque me lembro de todas a história que meu cabelo traz, e agora entendo que uma jornada assim é muito mais do que um penteado que não combina mais com você.

Eu lembro de todo bullying e racismo sofrido na infância e dos produtos bizarros que eram promovidos e vendidos de maneira indiscriminada para que desde criança sentíssemos vergonha dos nossos cachos. Lembro da falta que a representatividade na mídia sempre me fez sentir como uma estranha no mundo, e lembro de quanto eu desejava ter cabelos lisos mesmo sem entender por que desejar algo assim.

Por outro lado, eu lembro de coisas boas também. Lembro do cuidado e dedicação que minha mãe, tias e avós passavam suas sabedorias e tradições de cuidados com o cabelo pra mim e percebo como eu aprecio tudo isso agora. Lembro como eu sempre admirei os cachos da minha mãe (mesmo quando incoerentemente os odiava em mim). Lembro que hoje em dia tem um montão de menina crespa por aí para servir de exemplo, pra que crianças negras se sintam representadas, e não tenham vergonha de seus cachos.

Lembro que a transição é algo que te faz conhecer o próprio cabelo, mas também um montão de gente inspiradora com experiências incríveis pra contar.

No final das contas, hoje percebo que querer ter cachos nunca foi sobre mudar o penteado para afastar aquele incômodo que eu sentia quando eu me via com o cabelo liso no espelho. Na verdade, qualquer mudança se fazia necessária porque aquele desconforto era sobre eu me encontrar.

É por isso que uma jornada assim é muito mais do que um penteado que não combina mais com você e é um caminho que se segue em conjunto.

Oito meses de transição ( e contando…)

Como eu mencionei, eu decidi voltar aos cachos sem estar ciente do caminho que eu estava embarcando. Na verdade, nunca houve um momento em que pensei “ok, agora vou parar de alisar” e confesso que essa frase é algo que nunca disse em voz alta. Foi por acaso que me dei conta que não uso produtos químicos há 8 meses e isso tem sido algo tão natural, que eu quase não percebo a falta desses tratamentos.

Oito meses! Eu, a garota que não podia ver a raiz do cabelo crescendo que já queria alisar está há oito meses sem tratamentos químicos. E olha, nunca me senti tão bem em relação a mim mesma.

A transição capilar vai te fazer enxergar o mundo com outros olhos

Como qualquer outra pessoa que decide conhecer o próprio cabelo natural, eu nem me lembrava da textura dos meus fios, o que é muito estranho: imagine ter 25 anos e não saber como o seu cabelo é.

Devo admitir que eu e meu cabelo ainda estamos nos conhecendo: ainda não fiz o big chop, ainda estou entendendo quais produtos funcionam, ainda uso tranças, perucas e um monte de coisas pra me divertir durante a jornada.

Mas cada cachinho novo que se forma é um sorriso.

Não saber qual textura do meu cabelo já me trouxe medo antes, mas agora me traz apenas uma certeza: na transição capilar para o cabelo natural, o mais importante não é abandonar as químicas, mas se encontrar no meio dessa jornada. É perceber que a beleza não está no tipo de cabelo, mas na sua relação consigo mesma. Acredite, nesse caminho entre cabelos lisos, tranças, perucas, e texturizações, é muito fácil se sentir bonita em todos os jeitos. Mas pra se sentir bonita, você vai precisar embarcar em uma viagem de descobertas, do próprio cabelo e da sua própria auto estima.

E cada pedacinho do caminho vale a pena.

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1 comentário

  1. Poxa Stephanie, disse tudo agora! Amei seu texto. Particularmente, tem muito a ver com o que estou passando agora. Ainda bem receosa do que vejo, mas sio estar fazendo a coisa certa. Você foi mais uma a me dar forças pra continuar nesse caminho!!!

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